domingo, 21 de dezembro de 2014

O Fim de uma história




O Fim de uma história

Estavam todos ali reunidos para a despedida final. Todos reunidos em volta do caixão ainda aberto, para as ultimas orações e ultimas despedidas. O representante do sacerdócio religioso fez sua fala fúnebre, cerimonial e religiosa, e convocou o grupo para que rezassem. 

Terminada a reza um familiar próximo fez um sinal para que fechassem o caixão e seguisse os procedimentos finais do funeral, baixar o caixão até o fundo da cova. Neste momento reinava um silencio sepulcral. Quebrado apenas pelos gritos de um gavião que rodopiava nas alturas, em meio ao sol quente.

No meio do silencio das vozes pálidas, surge outro grupo caminhando em silencio. Seguem caminhando lentamente pelos atalhos do campo santo, como se não quisessem atrapalhar o descanso dos que ali repousavam. Aproximaram-se do funeral formando um semicírculo para que todos se colocassem em condições iguais, na chegada de um lugar que entendiam como um destino final. Aproximaram-se e pararam a uma distancia que podia ser chamada de posição de respeito, aos que participavam do funeral. De um modo gestual ordenaram a paralisação do cerimonial. O ranger das roldanas foram silenciando lentamente. Cada gesto dos presentes era calculado e milimetrado. Quando o movimento de descida parou junto com o ranger das roldanas, uma nova ordem gesticular. Retirem o caixão de volta. O gavião parara de gritar.

Novos olhares de espantos que tentavam sussurrar, mas não se atreviam diante de tal situação. Novamente o silencio é quebrado pelas roldanas, que agora giravam em sentido contrário, retornando o caixão de uma viagem já realizada. O movimento ao contrario era mais penoso pela subida, um sacrifício ainda maior por não entender como um corpo franzino podia pesar tanto. Por fim o caixão chegou ao nível do solo, e ali ao lado foi depositado.

 O silencio das vozes que era sepulcral, torna-se um silencio tumular, com uma expressão oculta em cada olhar. Ninguém se mexia, estavam todos estatizados com a situação. Um misto de medo e suspense, do que poderia acontecer pelos próximos minutos. Seria uma ação de meliantes dentro de um cemitério? Qual seria a real intenção daquele grupo? No meio de tantas covas rasas, não havia locais para correr ou se esconder. Melhor seria aguardar os acontecimentos e rezar, silenciosamente, nada de desesperos. Cada um deveria fazer suas orações em silencio, para não criar melindres com o grupo recém-chegado. E assim aconteceu.

Passado alguns instantes, já havia tempo suficiente para que cada presente pudesse ter visto os rostos daqueles componentes do grupo que ali se apresentava. Com gestos discretos cada um pode girar seu globo ocular para todas as direções sem outro músculo aparente movimentar.

Aos poucos as expressões de medo foram se ausentando de cada face, restando uma expressão de suspense ou surpresa, e assumindo agora uma expressão de uma situação geral de espanto. Alguns membros do grupo eram conhecidos de muitos daqueles ali presentes. Cada membro do grupo podia conhecer ou reconhecer, ou um ou outro, membro do grupo que ali chegara ao ultimo momento cerimonial. Poderiam mesmo até estar ali, para prestar uma ultima homenagem. 

Todos já sabiam ou pressentiam que não se tratava de uma ação marginal. Eram pessoas do bem. Mas porque não haviam chegado mais cedo? Porque não chegaram ao cerimonial ao tempo de participar, como todos os outros presentes. Ainda reinava um suspense.  Um misto de calor e de frio circulava entre as pessoas. Só uma brisa assobiava nos ouvidos atentos. Grandes besouros de asas batentes circulavam entre as flores. Por fim os novos participantes se posicionaram em volta do caixão, e o abriram novamente, expondo o corpo que acabara de ser velado e quase enterrado. Retiraram o corpo e o depositaram sobre o chão de terra.

Começaram por investigar cada parte do caixão, como quem procura algo escondido em paredes e fundos falsos, não encontravam nada. Terminada uma suposta vistoria no caixão, passaram a revistar o corpo, seus bolsos e seu paletó. A situação começa a ficar cada vez mais intrigante. O que estariam procurando? Estaria o defunto ou aquele grupo participando de ações secretas que nunca foram imaginadas? Seriam um grupo tão secreto que ao longo de vidas não tivessem deixado pistas de suas ações? Cada presente naquele momento imaginava histórias nunca antes imaginadas. Por fim pararam ou desistiram de procurar aquilo que ninguém imaginava o que seria. 

Alguns do novo grupo se juntaram, e de um único gesto, recolocaram o corpo novamente no caixão. Terminaram aquela remoção e limparam suas mãos umas nas outras, como se quisessem espanar a terra acumulada nas mãos, e em um gesto de limpeza por tocar em um corpo que já tinha ido ao fundo da sepultura. Pensaram e murmuraram em uma só voz; pela primeira vez o grupo emitia uma voz. Parece que desta vez ele esta saindo sem levar nada.

 Os participantes tiraram lenços brancos de dentro dos bolsos para finalizar a operação de limpeza e desinfecção de suas mãos. Limparam as mãos nos lenços, deixando resíduos de terras nos tecidos que antes eram bem alvos. Limparam as mãos com os lenços, depois embolavam-os de qualquer maneira e atiravam dentro do caixão. Fizeram seu ultimo olhar ao morto virando de costas, para o caixão. E com uma expressão clara percebida por todos os presentes, seus pensamentos e suas ações: “leve estes lenços como sua ultima subtração”. Terminaram seus objetivos e tarefas, e voltaram para a mesma direção de onde chegaram. Revistaram tudo e não encontraram nada, assim parecia ter acontecido. Não acharam nada, não retiraram nada e não falaram mais nada.

A viúva aproximou-se do caixão, e observando tantos lenços sujos e embolados seus olhos brilharam. Brilharam tanto que pareciam que iam se debulhar em lágrimas. Ela não chorou, e avidamente recolheu todos os lenços, um por um. E os guardou onde conseguiu guardar, sem se preocupar com sujeiras ou observações. Na pressa de recolher todos os lenços, foi colocando-os onde podia ou onde cabiam: nos bolsos, presos a cintura ou juntos do sutiã. Parecia a ela não haver um corpo ali á sua frente, só lenços.

Todos entenderam sua intenção de recolher os lenços. Lavar, quarar, secar e passar, para depois guardar. E quem sabe não pudesse entregar pessoalmente, já limpos e perfumados. Ela sabia que em breve iriam se encontrar, e novas subtrações juntos poderiam realizar. 

O destino como sempre, tem uma peça ou uma lição a contar. Em uma sepultura ao lado estava escrito, uma frase para quem quisesse observar: Nenhuma herança é tão rica quanto a honestidade (Willian Shakespeare). O gavião começava novamente a gritar.





Natal/RN 21/12/14

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